Marte, Deus da Guerra, figura eminentemente masculina é filho de Februa, Deusa Etrusco-Romana da morte, do parto e da purificação. Isso inverte a lógica patriarcal que tenta fazer a guerra (e a história) nascer de si mesma. Esta simples metáfora sintetiza a ideia desta curta narrativa: a da luta. Marte curiosamente é o mês dedicado à nós, mulheres, embora nossa luta seja diária, mensal, anual. Não obstante, nos faz perceber o quão fecundas, produtivas e importantes somos às sociedades do passado, presente e futuro. No mito, Februa pare e se purifica, dando origem a Marte. O parto normalmente é doloroso e pode gerar a guerra. Sabemos que, historicamente, a doçura e a sensibilidade foram apagadas pela violência. Infelizmente, nós mulheres lutamos incessantemente contra três milênios de crueldade, abuso e apagamento sofridos a partir do sexo oposto, o masculino. A guerra (Marte) que deveria proteger a fecundidade (Februa) se volta contra ela. O filho devora a mãe simbolicamente, e a história é contada do ponto de vista do guerreiro, não da que o gerou. Februa, amiga de Juno, traz a ideia da integração entre a morte e a dor. A luta feminista não é apenas sobre a vida e a fertilidade, mas também sobre o direito de nomear a morte, a violência sofrida e, por meio desse reconhecimento (purificação), encontrar a força para lutar. Februa não é apenas a mãe amorosa; ela é a amiga da morte, aquela que conhece os ciclos e sabe que para purificar é preciso, primeiro, enfrentar o que foi moralmente corrompido. Assim como no mito de Sísifo é preciso imaginá-lo feliz, no mito de Februa, é preciso imaginá-la limpa e livre de toda a maldade masculina.
(TF 03/03/2026)
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